Sentei-me ao seu lado.
- Tudo bem com você? Perguntei a ela.
- Tudo indo e com você?
- Tudo ótimo. Respondi.
O silêncio se fez até eu tentar puxar assunto.
- Você tem certeza que está bem? Eu estou perguntando isso, por que você conseguiu me responder sem aquele seu tom de superioridade. Sorri de leve.
- Digamos que minha cota de brigas por hoje já se esgotou.
- Você quer conversar sobre?
- Por que eu conversaria com você?
- Por que não somos amigos?
- Eu não deveria conversar com alguém que fosse?
- Na verdade não. Às vezes a gente tem medo de falar algumas verdades para quem a gente gosta, pensando que estamos protegendo-as. Muitas vezes estamos tão envolvidos na estória que nem a gente consegue enxergar com outros olhos. Quem está de fora sempre enxerga melhor.
- Não acho que esse seja o momento para isso.
- Ok. Desculpa, eu só estava tentando ser gentil.
- Eu não preciso da sua gentileza.
Ao ouvir isso percebi o quão inútil estava sendo a minha tentativa de ser amigável. Foi por essas e outras que eu tomei coragem de não me importar para os sentimentos dos outros. Muitas vezes você tenta ajudar e quem acaba se machucando é você. Me levantei sem responder e fui em direção a festa novamente, quando Emily gritou:
- Espera!
Me virei, dessa vez sem compaixão no olhar, sem sentimentos de piedade.
- Talvez você tenha razão. Talvez ele tenha razão.
Voltei devagar para onde estava sentado. Esperei que ela continuasse o que acabara de começar a falar.
- Eu sou egoísta. Eu penso a maioria das vezes em mim, mas hoje eu tenho certeza que não foi por causa do meu egoísmo. Desculpa. Eu sei que você não está entendendo nada, mas a estória é bem mais complicada e eu não queria entrar em tantos detalhes.
- Você decide o que quer falar, eu apenas escuto.
- Aconteceram algumas coisas entre eu e meu namorado. Depois disso parece que tudo começou a cair sobre minha cabeça, entende?
Balancei a cabeça.
- Ethan é o amor da minha vida, mas eu não tenho mais certeza se eu sou o amor da vida dele. Pode ser apenas coisa da minha cabeça. Não estamos passando por uma boa fase. Eu o entendo, mas queria que ele me entendesse também. Se ele conseguisse fazer isso, eu não estaria aqui sozinha e consequentemente não estaria conversando com você.
- Então eu suponho que tudo tem seu lado positivo, não acha?
Emily sorriu.
- Posso ser sincero?
Ela respondeu com a cabeça.
- Talvez vocês precisem de um tempo. Eu não conheço você e eu não o conheço, mas eu sei bem o que é um relacionamento complicado. Se aconteceu algo que mexeu com ele e com você, ou se você não está segura dos sentimentos dele, a melhor coisa que se tem a fazer é deixar o tempo falar por vocês. Não ache que a vida é bela e que você vive um conto de fadas. As pessoas mudam Emily. Sentimentos mudam. Se você ainda acredita que o seu namoro de ontem é o mesmo que o seu hoje, me desculpa, mas você vai viver sofrendo.
- Eu não acho isso Tommy. Nos não somos mais crianças. Eu cresci e ele também, mas o que eu sinto por ele cresceu junto com o tempo entende? Por um acaso, você alguma vez na sua vida já gostou de alguém para saber?
- Se eu disser que sim, você acreditaria?
- Não.
- Por que não?
- Não sei. Você só não parece ser do tipo que se apaixona, entende? Aquele que leva as coisas a sério.
Sorri achando engraçado. Se ela falou aquilo, era sinal de que eu conseguia demonstrar realmente aquilo que eu queria. Para que demonstrar sentimentalismo enquanto as pessoas só ligam para si mesmo? Voltei a conversar.
- Aconteceu comigo algumas vezes.
- Quer falar sobre, já que não somos amigos? Emily sorriu da sua pequena ironia.
- Eu era adolescente quando comecei a namorar Ana. Eu era apaixonado. Ela foi minha primeira namorada.
- E sua primeira vez. Interrompeu Emily.
- Também. Eu achava que ela era minha vida. Namoramos por um ano e alguns meses. Quase dois anos. No começo era tudo flores. Até que eu descobri que ela me traia a mais ou menos oito meses. Isso foi uma decepção para mim. Vocês acham que só as mulheres se machucam, mas isso é mentira. Ser traído daquele jeito doeu, como eu nunca tinha sentido antes. O problema de deixar alguém é se acostumar à ausência dela e isso foi o que mais incomodou no começo, até eu me acostumar. Depois que se acostuma a viver sem a pessoa fica fácil.
- Você voltou para ela depois disso?
- Não. Digamos que eu seja um pouco orgulhoso. Depois disso eu quis aproveitar tudo que aparecia. Achava que assim seria mais fácil esquecer. Gostava de mostrar para ela o quanto eu estava bem e feliz. Mostrar a ela o que ela perdeu. Então eu conheci Camila. Namorei por dois anos. Já tinha amadurecido bastante com ela. No começo foi difícil, mas depois você vai se adaptando. Descobri que o coração da gente é flexível. Já não havia rastros, nem cicatrizes de Ana.
- E por que você acabou com Camila?
- Na verdade eu não acabei e sim ela. Eu não sei por que. Alguns amigos meus a viram com um rapaz uns meses depois em algumas festas. Eu preferi não esbarrar com ela. Doía entende? Fui tentando esquecer e não me apegar a mais ninguém e aqui estou eu.
- Magoado?
- Livre.
- Eu sinto muito por isso.
- Você não deve sentir. Esse é o ponto Emily.
- Por que você me contou tudo isso?
- Por que talvez depois de tanto tempo eu precisasse contar para alguém que amanhã não iria sentir pena de mim.
Emily me olhou com um olhar diferente dessa vez. Respirou e continuou.
- Comigo é diferente Tommy. Eu conheço Ethan desde criança. Estamos juntos nossa vida inteira. Tivemos algumas pessoas, mas sempre voltamos um para o outro.
- Chega uma hora que isso tem que acabar, você não acha?
- Eu acho que ainda temos muito que viver juntos. Isso é só uma fase ruim.
- Espero que você esteja certa.
- Eu também.
- Mas não fique mais triste assim. Eu gosto mais quando você briga comigo. Você assim é muito mais chata do que o normal.
Emily sorriu mais uma vez.
- Por que você me odeia? Perguntei.
- E quem disse que eu te odeio?
- É preciso alguém dizer? Sorri.
- Eu não te odeio Tommy. Eu só não te conheço e você também não ajuda muito. Se você soubesse o quanto eu odeio o jeito que você fala, suas ironias.
- Como se as suas fossem fáceis de aguentar né?
Ela retribuiu com um sorriso.
- Emily... Devido ao momento, acho que eu tenho que te pedir desculpas.
- Pelo que?
- Por te julgar de forma errada, por falar mal de você para mim mesmo.
- Ok. Também não posso dizer que nunca falei mal de você.
- Então estamos certos assim? Você não fala mais mal de mim e eu não falo mais mal de você.
- Vou pensar. Não posso garantir nada agora. Estou muito sentimental e posso me arrepender de algumas coisas amanhã.
- Bom... De hoje para amanhã ainda falta muito tempo. Então quer tomar uma cerveja?
...
O sábado amanheceu girando. A noite foi tão boa que eu nem me dei conta de quantos copos de Chopp eu havia bebido. Tudo que eu queria era um bom copo de água gelada e ficar deitado ali, até aquela dor de cabeça passar. Fazia tempo que eu não bebia assim. Logan e Sarah também aproveitaram para se revelar e divertir. Logan pela primeira vez tomou seu porre e Sarah conseguiu se enturmar com as patricinhas de Rosetown.
Após alguns minutos me levantei. Olhe para o relógio que marcava 1:00 da tarde. Chuck ainda dormia com Caroline. Fui andando até a geladeira para pegar um copo de água. Sentei no banco da cozinha e coloquei a jarra em cima do balcão. Lembrara-me de como tinha sido estranha à festa. Um estranho bom. Como eu pude me abrir com Emily? Aquela na qual eu jurei a mim que seria a última pessoa que eu iria querer me aproximar. Pensei. O que mais me assustou foi o fato de ter realmente gostado de fazer isso. Estaria eu ficando louco em admitir que talvez eu estivesse errado sobre ela? Seria fácil admitir isso para os outros ou o mais difícil admitir a mim mesmo?
Caroline acordou com um pouco de ressaca também. Olhou para mim e deu um sorriso sapeca. Tínhamos conversado bastante na noite anterior. Não fazia ideia de como ela era inteligente, independente e amadurecida. Acho que por isso Chuck era completamente apaixonado por ela. Ela fazia faculdade de arquitetura. Tinha suas próprias opiniões formadas sobre quase tudo e era segura de tudo que fazia. Ela veio se sentar no outro banco ao lado do meu. Ofereci água e ela aceitou balançando a cabeça. Ela bebeu como um camelo bebe água em um deserto. Acabamos a jarra de água e ali ficamos conversando um pouco.
- Então Tommy... O que achou da festa?
- Ótima. Quando será a próxima?
Caroline riu.
- Não faço a mínima ideia, mas te mantenho informado.
- Obrigado!
- O problema de uma festa é o dia seguinte.
- Tem alguma aspirina ai?
- Devo ter na minha bolsa, mas não vou me levantar tão cedo daqui.
Dessa vez eu sorri. Também não estava com coragem de mexer um dedo do pé.
- Chuck ainda está dormindo? Perguntei.
- Com certeza. Ele só vai acordar mais tarde. Não sei de onde ele tira tanto sono.
- Da semana. Ele trabalha muito.
- Eu sei, mas às vezes brigamos por conta disso. Ele precisa dar um tempo também. Se eu não o amasse tanto, já teria acabado com ele e o mandado ficar com o trabalho. Caroline dessa vez sorriu.
- Eu acho que não. Sorri.
- E você?
- Eu o que?
- Não vi você flertando com nenhuma garota.
- E você nunca verá. Eu não flerto, eu dou em cima.
Caroline fez cara de quem não gostou, mas depois sorriu.
- Quem ainda fala “flertando”? Isso nem meu avô falou.
- Você é todo engraçadinho né?
- Faz parte do negócio.
- Mas sério... Nenhuma garota te interessou na festa? Olhe que haviam muitas.
- Para ser bem sincero? Eu nem reparei nelas.
- É verdade. Eu percebi. Emily não deixou.
- O quê?
- Eu notei que vocês dois passaram a noite conversando. Um pouco amigável. O que aconteceu? Por que até onde eu sabia, ela não gostou muito de você.
- Ela te falou isso?
- Ela não precisa me falar Tommy. Eu a conheço muito bem para notar.
- É... Digamos que não começamos bem, mas também não pense besteira. Eu só estava tentando ser gentil com uma pessoa. Eu a vi sozinha no jardim e fui perguntar se ela estava bem, mas só foi isso.
- Sei.
- Conversamos um pouco, civilizadamente. Não temos cinco anos de idade para ficar implicando o tempo todo.
- Eu sei que não. Só estou comentando por que gostei de ver vocês dois se dando bem. Afinal de contas você é amigo de Chuck, ela é minha amiga, então vocês ainda vão se esbarrar muito por ai.
- Exatamente!
- Mas sobre o que vocês conversaram?
- Relacionamentos. Ela parecia triste, por que tinha brigado com o namorado, então eu fui tentar fazê-la desabafar um pouco.
- Esse namoro dela é um drama de anos. Eu adoro Ethan e adoro os dois juntos. Lutaram para chegar onde estão, mas eu acho que Emily precisa de alguém que realmente mostre a ela coisas diferentes.
- Como assim? Pensava que esse tal de Ethan fosse perfeito.
- Tommy ninguém é perfeito. Ethan não poderia ser diferente. Ela idealiza por que é louca por ele, mas algumas coisas que ele fez eu não apoio. Como algumas coisas que ela fez eu também achei errado. Eu sinceramente acho que o namoro deles não tem mais para onde expandir, entende?
- Entendo. É complicado Caroline.
- Que é complicado é, mas a gente não precisa deixá-lo mais ainda, não acha?
- Deixa o tempo passar para eles. Um dia eles se cansam.
- Eu não quero nem pensar quando Ethan for fazer a residência dele.
- Deve ser difícil mesmo com todas aquelas enfermeiras... É um paraíso.
Sorri da piada. Caroline retribuiu.
- Não é nada disso que eu estou falando. Eu só acho que vai ser difícil para Emily.
- Ele vai sair da cidade?
- Até agora eu não sei, mas sinceramente? Ele já fez isso diversas vezes, não ficaria chocada se ele fizesse de novo.
Chuck para nossa surpresa acordou e abriu a porta do quarto, encerrando nossa conversa. Ali ficamos os três, bebendo o resto da água e conversando sobre a noite que passou.
...
Eram mais ou menos 6:00 da noite quando Emily ligou para Ethan. O celular chamou, mas caiu na caixa postal. Emily deixou o celular dela na mesa da sala e foi preparar algo para jantar. Cindy havia viajado para uma cidadezinha do lado. Foi visitar sua mãe. Depois de alguns minutos o celular de Emily tocou.
- Oi Em, você ligou para mim?
- Sim. Não nos falamos desde ontem. Queria saber como você estava.
- Eu estava no banho por isso não escutei o celular, desculpa.
- Tudo bem. Como você está?
- Estou bem. Como foi a festa?
- Foi ótima.
- Não liguei por que não queria te acordar.
- Foi bom. Dormir feito uma pedra.
- Então a noite foi tão boa assim?
- Foi ótima. Fazia tempo que eu não bebia com minhas amigas daquele jeito.
Ethan ficou mudo.
- Ethan você está ai?
- Sim.
- E como foi à noite com a sua mãe?
- Foi ótima. Saímos para jantar e conversamos um pouco sobre o papai e algumas coisas.
- Que bom. Ela ainda está ai?
- Sim, volta amanhã para Holland.
- Diga que estou mandando beijos.
- Eu direi. Estava pensando que talvez a gente pudesse fazer alguma coisa hoje à noite. O que você acha?
- Desculpa Ethan, mas eu pensei que você fosse passar o fim de semana com sua mãe, então marquei com Caroline de fazer alguma coisa hoje à noite. Cindy está viajando.
- Hum... Sei. Então a gente se ver segunda na faculdade.
- OK. Te amo.
Ethan desligou o celular. Emily voltou a fazer sua janta.
...
Caroline tinha voltado para casa. Hoje a noite teríamos uma pequena reunião, organizada de última hora. Caroline havia convidado Emily. Eu chamei Logan e Sarah, mas ambos não poderiam ir. Então no fim das contas a reunião seria entre nos três. Eu e Chuck fomos ao supermercado comprar algumas cervejas e algumas besteiras para comer. Caroline prometeu que chegaria as 10:00. Arrumamos tudo, colocamos as cervejas na geladeira e fomos nos arrumar. Dizem que uma ressaca só se cura com outra boa dose, então era isso que eu pretendia fazer. Beber algumas cervejas de leve, só para não sentir a cabeça explodir novamente. As 10:00 em ponto escutamos um barulho de porta se abrindo. Caroline chegará com Emily. As duas ainda trouxeram mais comida. Cumprimentei educadamente as damas. Caroline brincou dizendo que tinha passado em uma farmácia para comprar aspirina. Sorri e fui ajudá-las com as sacolas. Emily tirou o casaco e colocou em cima da cadeira. Peguei quatro cervejas e começamos a conversar. Todos sentados no sofá.
- Vamos brincar de jogo da verdade? Propôs Caroline.
- Essas coisas não dão muito certo quando se tem um casal. Eu falei sorrindo.
- A não ser quando um dos dois tem algo a esconder, certo Chuck? Perguntou Caroline fazendo cara de mal.
Chuck respondeu com um piscar de olhos.
- Ok. Então vamos começar a brincadeira. Respondi.
Sempre com essa mania de me deixar curiosa... Uma hora eu me acostumo! Eu tenho fé! KKKKKKKKKKKK...
ResponderExcluirA curiosidade matou o gato ;P
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