Bem Vindos!!

Esse blog é destinado a todos aqueles que são apaixonados por leitura e seus romances.
Sejam todos Bem Vindos e Divirtam-se.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Capítulo 4

   Acordei bastante disposto. O inverno estava passando e eu não via a hora de sentir o sol queimar minha pele. Tive que me arrumar um pouco depressa, por que 20 minutos de atrasado para a escola, seria correria na certa. Eu sou do tipo que tenho hora para acordar, tomar banho, comer e arrumar minhas coisas. Se um minuto desse tempo se perder, eu perco todo o resto. Engoli algumas frutas, tomei um café quente e amargo, por que esqueci do açúcar, e sai correndo para a escola. Cheguei um pouco desarrumado e cansado na sala. Logan e o restante da turma me olharam assustados. Sorri vergonhosamente e fui em direção a minha banca. Sentei quase me deitando, enquanto Logan continuava a olhar para mim.

- Você está bem? Perguntou ele.
- Sim, eu estou ótimo.
- Você não parece bem.
- Eu acordei atrasado hoje, só isso.

Ele se calou.

- Então você já escolheu quem vai ser o nosso alvo?
- Nosso alvo?
- Sim a garota que vai te levar para as nuvens.
- Tommy eu já disse que não quero isso. Olha cara eu estou bem assim.

   Fiz a minha cara de quando estou entediado com alguma coisa. Pendurei minha mochila atrás da cadeira, olhei para a janela, depois voltei os olhos para a sala e lá estava ela. A garota Logan. Ela tinha os cabelos meios ruivos, uma pele branquinha, uma carinha de anjo. Olhei para Logan, olhei para ela, e percebi que eram o casal perfeito. Eu precisava ir falar com ela, saber nome, onde morava e o que gostava de fazer, para então arrumar um jeito de juntar os dois. Eu me sentia um adolescente outra vez. Eu nunca fui um bom cupido, na verdade eu sou péssimo. O último casal que eu tentei juntar quase deu em prisão. Não, isso é mentira! Mr. Carter entrou na sala com sua mesma garrafinha de café e começou a sua aula entediante.

...

   Emily estava entrando no carro de Cindy quando lembrou que esquecera seu trabalho na escrivaninha do quarto. Subiu rapidamente para pegá-lo. “Por que eu sempre esqueço as coisas mais importantes?” Pensou ela chateada por ter que subir de novo no apartamento. Desceu, sentou no carro de Cindy e as duas seguiram para a faculdade.

- Eu te mataria se você esquecesse nosso trabalho. Não estamos em posição de pedir mais nada a Mr. Collins. Disse Cindy.

Emily guardou o trabalho na pasta.

- Você vai direto para casa de Ethan depois da faculdade ou vai voltar para casa?
- Só vou para casa de Ethan a noite. Preciso organizar algumas coisas hoje a tarde, mas por que a pergunta?
- Eu só queria saber. Acho que vou precisar passar em algum supermercado para comprar algumas coisas que estão faltando.
- Podemos ir juntas se você quiser. Também estou precisando comprar algumas coisas.
- Ok.

   Emily olhou para frente. Alguma coisa estava incomodando-a. Era como se ela quisesse contar algo, mas não tivesse coragem. Cindy era como uma mãe para Emily. Sempre que  ela precisava desabafar, Cindy dava os melhores conselhos. Cindy e Caroline com certeza era suas melhores amigas. Emily respirou fundo. Cindy sentiu que algo estava errado dentro do carro e não era nada mecânico.

- Está tudo bem Emily?
- Sim, por quê?
- Você parece está nervosa.
- Não, eu estou bem, é só impressão sua.
- Impressão minha? Eu te conheço bem Emily. O que está incomodando você?

Alguns segundos depois Emily quebrou o silêncio.

- Cindy eu acho que eu estou grávida.

   Cindy freou imediatamente. Alguns carros que vinham atrás tiveram que frear bruscamente. Ouviram-se algumas buzinas e alguns gritos de “Tá maluca?”. Cindy respirou e olhou para Emily.

...

   O sinal tocou para um intervalo curto, mas Logan não quis se levantar. Eu olhei para a ruivinha que havia se levantado e ido em direção ao bebedouro. Era a hora certa para falar com ela. Levantei da cadeira, perguntei a Logan se ele queria ir a algum lugar. Negativamente ele mexeu a cabeça, então fui para o ataque. Me aproximei lentamente do bebedouro e lá estava ela bebendo água feito criança. Ela terminou e sorriu para mim como se dissesse “Pode beber agora”. Sorri de volta, bebi um pouco d’agua, quando a vi voltando para a sala. Peguei imediatamente no braço dela. Ela me olhou assustada.

- Calma, eu não vou fazer nada. Meu nome é Tommy, mas você pode me chamar de Tom se quiser. Qual o seu nome?
- Sarah.
- Oi Sarah, prazer em conhecê-la. Então... Eu estava observando você e achei que talvez a gente pudesse ser amigos. O que você acha?
- Eu acho que você não bate bem da cabeça.

    Eu sorri. Já era um costume ouvir isso das pessoas, só por que eu sou um pouco direto e objetivo.

- Eu acho que as pessoas aqui são tão individualistas. Eu só estou tentando conhecer o máximo de pessoas que eu posso, afinal vamos passar bastante tempo juntos. Então pensei que talvez, você pudesse conhecer alguns amigos meus, eu conhecer alguns amigos seus e assim aumentar o nosso ciclo de amizade.
- Desculpa, mas do que você está falando? Você bateu a cabeça em algum lugar? Caiu da cama?
- Faça o seguinte... Sente comigo e o meu amigo Logan o restante da aula. Se eu ou meu amigo parecermos chatos, perigosos ou malucos como você está dizendo, amanhã eu prometo que não chego perto de você. Agora se eu perceber que você está gostando... Bom, eu prometo não te deixar mais em paz.
- Por que você está fazendo isso? As pessoas nunca pedem para serem meus amigos.
- É exatamente por isso. Digamos que eu sou o pai das pessoas aparentemente rejeitadas e que estou cansando do cargo. Eu só estou pedindo para você umas horinhas. Se quiser eu te pago um sorvete ou um livro de história, mas, por favor...
- Ok. Mas eu posso cobrar o livro depois?
- Claro.

...

   Cindy estava paralisada diante do que Emily acabara de falar. Como ela podia ter deixado isso acontecer depois de tanto tempo de namoro? Se ela realmente estivesse grávida, como seria daquele momento em diante? A faculdade, os planos? E o que é pior, saber como chegar e falar para Mrs. Harris que ela iria ter um filho naquelas condições em que a família se encontrava. Com certeza essa seria a parte mais difícil de todas. Emily calada estava e calada permaneceu. Cindy não sabia o que falar naquela hora. Não sabia se criticava ou se confortava a amiga dizendo que era só uma suspeita. Cindy encostou o carro no canto da rua e desligou-o. Olhou para Emily que estava de cabeça baixa, aparentando tristeza em seus olhos, segurando-se para não chorar.

- Você tem certeza Emily?
- Certeza eu não tenho, por isso quero fazer o teste, mas não sei se tenho coragem.
- Mas você vai precisar ter. Você vai ficar com essa duvida até quando?
- Meu deus o que Ethan vai pensar?
- Ele não tem que pensar nada, se você estiver grávida foi erro dos dois.
- Eu sei, mas...
- Olha Emily, vocês estão nessa juntos e eu também estou do seu lado. Eu não vou te deixar em uma hora dessas, eu nunca te deixei.
- Eu tenho toda uma vida Cindy. Ethan está preste a fazer sua residência. Ele tem planos, eu tenho planos. Eu sou nova demais para assumir tamanha responsabilidade. Já me perguntei várias vezes onde foi que eu errei ou o que eu fiz para merecer que as coisas aconteçam comigo dessa forma. Nada entre mim e Ethan nunca foi fácil e agora vem essa estória. O que eu faço?
- Primeira coisa que você tem a fazer é se acalmar e depois encarar a verdade. Você não precisa contar nada a Ethan agora. Faça primeiro o teste, depois dependendo do resultado você fala ou não. Isso pode atrapalhar ele, deixar ele preocupado.
- É você tem razão. Vamos logo para a faculdade, já estamos atrasadas e eu preciso esquecer um pouco isso.

Cindy deu partida no carro e voltaram a seu caminho de destino.

...

   Cindy e Emily chegaram na faculdade atrasadas. Entregaram o trabalho e assistiram o restante da aula. Emily não conseguia parar de pensar sobre o assunto que haviam discutido mais cedo e rezava para não encontrar Ethan pelos corredores. Ela não sabia se conseguiria disfarçar a preocupação e Ethan com certeza perceberia que algo estava errado. Ao terminar a aula Cindy pegou Emily pelo braço e saíram o mais depressa que puderam, mas não o suficiente para que Ethan não as visse. Ele correu para alcançá-las.

- Ei para onde vão com tanta pressa? Perguntou ele sorrindo.
- Compras. Respondeu Cindy tentando não puxar muito assunto.
- E você ia embora sem nem falar comigo Emily? Perguntou ele dessa vez olhando para Emily.
- Desculpa Ethan. Eu ia te avisar, mas eu terminei esquecendo o celular em casa.
- Está tudo bem com você?
- Ela está ótima, mas agora a gente precisa ir. Respondeu Cindy puxando Emily pelo braço de novo.
- Espera! Será que você deixa pelo menos eu dar um beijo na minha namorada antes dela ir? Perguntou Ethan meio encabulado com Cindy.
- Rápido.
- Será que você pode esperar a gente ali 5 minutos?

   Cindy fez cara de quem não gostou, mas foi andando em direção ao carro. Emily sorriu de lado para Ethan e esperou que ele a beijasse, mas isso não aconteceu.

- O que está acontecendo Emily? Eu te conheço e tem alguma coisa de errado. É comigo? Você está passando mal?
- Não Ethan não é nada. Eu estou bem, só com um pouco de dor de cabeça e ainda preciso fazer algumas compras.
- Você pode enganar qualquer pessoa Emily, menos a mim. Fala logo o que está te preocupando, se não eu vou começar a achar que é comigo e...
- Ethan...

   Ele ficou olhando para ela esperando o que ela ia falar e Emily por sua vez não conseguiu se segurar.

- Eu acho que eu estou grávida.

   Ethan ficou pálido. Seu coração começou a bater acelerado. Ele passou a mão na cabeça, não sabia o que falar.

- Você tem certeza disso que você está me falando?
- Eu não tenho certeza Ethan.
- Pode ser só coisa da sua cabeça, não pode? Eu quis dizer... A gente se cuida Emily.
- Eu sei, mas às vezes acontece Ethan. Olha... Eu não queria te deixar preocupado, mas você não me deu outra opção.
- Emily você sabe que eu não posso ter um filho agora. Eu estou acabando a faculdade, vou fazer minha residência. Você tem seus planos. Você não pode ter filho agora.
- E você quer que eu faça o que Ethan? Que eu volte no tempo? Eu tenho que ir, qualquer novidade eu te ligo.
- Eu vou ficar esperando.

   Emily virou e foi andando em direção ao carro de Cindy. Quando deu mais ou menos uns três passos, Ethan gritou.

- Emily!

Ela olhou para trás.

- Vai dar tudo certo, confie em mim.

Emily sorriu e continuou a andar para o carro.


...

   Fizeram as compras, esperaram bastante tempo na fila, até chegarem em casa. Cindy guardou tudo e foi preparar algo para elas comerem. Emily por sua vez ainda estava criando coragem para fazer o teste. Dizem que nessas horas as mulheres preferem não saber da verdade, mas o que Emily mais temia seria o que ela iria dizer a Ethan se a gravidez fosse confirmada. Ele sempre dizia que não queria filhos até ele se formar e ter condições de manter uma família. Não que dinheiro fosse problema para ele, mas ele queria fazer isso sem depender do dinheito dos pais. De fato isso é o que todo mundo espera, mas nem sempre é o que acontece. Enquanto Cindy cozinhava, Emily estava deitada. Antes que pudesse cair um pouco no sono, Emily ouviu Cindy chamar por ela da cozinha. Ela andou lentamente até mesa e lá estava uma bela salada. Cindy havia caprichado, mas Emily fez cara de que não queria comer. Uma preocupação pode causar vários danos, mas o principal é que tira toda sua motivação para as coisas essenciais: comer, dormir e sorrir. Cindy perguntou se ela já havia feito o teste e ela negativamente com a cabeça fez o sinal de não. Com todo dilema, Emily se esquecera de que tinha marcado de dormir na casa de Ethan naquela noite.
   Eram mais ou menos seis horas quando Emily trocou de roupa e pegou algumas coisas para levá-las para casa de Ethan. Se despediu de Cindy e pegou o elevador. Parou um táxi e foi pensando no dia difícil que ela passara. Como é possível em uma hora você está ótimo e outra parecer que o mundo desmoronou em cima da sua cabeça? Depois de mais ou menos 15 minutos Emily chegou a casa de Ethan. Desceu do taxi e foi andando até a porta. Tocou a cigarra e depois de um minuto Ethan abriu a porta. Ele expressava preocupação. Emily entrou, tirou seu casaco enquanto Ethan fechava a porta. Os dois se olharam estranhamente. Depois de tanto tempo juntos, aquele clima nunca tivera acontecido. Emily sorriu e Ethan fez sinal para que entrasse para a sala. Havia um copo de uísque na mesa.

- Você andou bebendo?
- Só uma dose, por quê?
- Por nada, foi apenas uma pergunta.

   Ethan sentou, pegou seu copo de uísque e fez sinal para que Emily sentasse também. Antes que Emily pudesse falar algo, ele se pronunciou.

- Você não me ligou, fiquei preocupado, pensando no pior.
- Desculpa eu andei um pouco ocupada a tarde.
- Você fez o teste?
- Eu fiz o teste a pouco tempo. 

   Ethan respirou fundo, tomou uma dose e perguntou:

- E então qual foi o resultado? Você está realmente grávida ou não?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Capítulo 3

   Emily morava em um apartamento com Cindy, sua amiga desde que começou a faculdade de jornalismo. Nos fins de semana quando não estava com Ethan ia para casa da mãe que ficava a umas três quadras do seu apartamento. Jamie seu irmão mais novo, não aceitava a morte do pai e a traição da mãe. Desde que seu pai morreu Jamie preferia passar o tempo nas ruas, bebendo e fumando com os amigos. Ele e Emily sempre tiveram uma relação muito estável. Ele confiava nela e seu irmão era tudo que Emily tinha, mas de uns tempos para cá, a agressividade de Jamie estava machucando Emily, que tinha que tomar conta da mãe e do irmão. Ethan era seu namorado. Eles se conheciam desde que usavam fraldas. Ele era o homem perfeito para ela. Inteligente, entrou para a faculdade de medicina e completamente apaixonado por Emily. Namoravam oficialmente a três anos. Quando adolescente Ethan era obrigado a morar com os pais, que viviam se mudando por conta do emprego do seu pai. Aos 15 anos Ethan voltou a Rosetown. Parecia que era oficial. Sua mãe voltou para a casa que era da família e prometeu cuidar dela até que seu pai voltasse para trabalhar no Rosetown Hospital. Ethan teve que se acostumar a ver o pai nos fins de semana, mas pelo outro lado, tinha Emily todos os dias que ele quisesse. Aquela paixão adolescente era devastadora. Um dia eles foram acampar perto de um lago que fica a alguns quilômetros da cidade. Era verão, então era comum que as pessoas arrumassem suas malas e fossem acampar.  Arrumam tudo, pegaram sua cabana e foram. A noite foi realmente especial. Ethan tinha programado tudo como Emily sempre sonhou e a lua naquele dia parecia estar a favor dos dois. Tiveram sua primeira noite juntos. Para Emily era como se ela estivesse em um sonho e não queria mais acordar. Ela e ele, os dois juntos, a lua perfeita, ela não queria mais nada.  Um ano depois Ethan foi morar na Europa, mas prometeu a Emily que era por pouco tempo e que os dois ainda continuariam a namorar mesmo a distância. Isso foi verdade. Eles se falavam todos os dias, até que a distância foi vencendo. Depois de um tempo Ethan voltou para fazer a faculdade de medicina. Era seu sonho desde criança. Talvez por influência do pai, ou por vocação mesmo.

...

   Emily estava lendo em seu quarto quando ouviu algumas pedrinhas batendo no vidro da sua janela. Seu coração na mesma hora começou a bater aceleradamente. Não pode ser! Aquelas pedras elas não eram reais. Emily e Ethan tinham um código de fuga quando mais novos. Sempre que os dois queriam se encontrar escondidos, Ethan jogava pedras na janela do quarto de Emily.

- Ethan! Pensou ela. 

   Rapidamente se levantou e olhou pela janela. Lá estava ele com seus cabelos claros e ondulados. Ela sorriu sem acreditar no que acabará de ver. Depois de tantos anos, ele ainda lembrava das pedras, ele ainda queria vê-la. Aquilo sem dúvidas foi a maior surpresa de todos os tempos. Emily calçou as sandálias e desceu rapidamente. Ao chegar ao meio das escadas pensou: “Agir naturalmente, não demonstre tanta emoção”. Emily estava magoada por não ter dado certo, mas ao mesmo tempo era tão diferente quando ela estava ao lado dele. Era como se não existisse raiva, magoa, tempo. Emily abriu a porta e o convidou para sentar na escada. Eles se olharam por um bom tempo. Ele apenas sorria para ela e pensava “como ela cresceu”. Até que as palavras venceram o silêncio.

- Nossa você está tão diferente.

Emily sorriu meio sem jeito.

- Você está ainda mais linda Emily. Como você conseguiu? Sorriu. - Como estão as coisas? Sua mãe, seu pai, Jamie?
- Estão todos bem e os seus pais como estão?
- Ótimos! Você sabe como eles são não é? Meu pai continua com sua obsessão pelo trabalho e minha mãe... Bom é a minha mãe. 
- E como foi lá na Europa? Muito frio?
- Foi bom. O frio europeu a gente se acostuma, difícil é aguentar o calor.

    Emily sorriu. Ethan olhou para ela, que expressava um rosto meio triste. Aquele sorriso tinha sido um sorriso de fim de conversa. Depois de alguns minutos em silêncio Emily perguntou com medo do que poderia ouvir.

- Por que você parou de me ligar Ethan? De mandar noticias? Eu fiz alguma coisa de errado?

   Ethan baixou a cabeça. Aquelas palavras doeram e ele temia que essas perguntas fossem feitas, mas era preciso responder. O mais importante era ser sincero. Ele respirou fundo e começou a falar.

- Emily eu sei que é difícil de dizer, de aceitar. Eu não dei mais notícias não foi por que eu não te amava mais, mas pelo fato de amar. Era difícil para mim aceitar toda aquela situação. Às vezes eu me sentia tão sozinho e queria você do meu lado, mas eu não podia ter.
- Eu nunca te abandonei Ethan, você sabe disso.
- Deixa eu falar, por favor... Eu sei que você nunca me abandonaria, mas não é a mesma coisa Emily. Às vezes o que eu queria era um abraço ou um gesto de carinho, mas você não estava lá.
- E você acha que eu não sofria com isso aqui também Ethan? Com tantos problemas que minha família está passando, o mínimo que eu queria era meu namorado do meu lado, mas eu não tinha e eu aceitava a situação, por que pior do que ter você distante é não ter você de jeito nenhum.
- Desculpa. Talvez eu tenha sido um covarde, mas eu estou aqui agora e eu vim para ficar. Se eu vim até aqui te procurar, é por que o que mais me importa nessa cidade é você.
- E o que você fez esse tempo que ficou longe de mim?
- O que você quer dizer?
- Ethan eu não sou mais aquela garotinha boba que você conheceu. Eu cresci, você cresceu e eu quero que você seja sincero comigo. O que você fez nesse tempo?
- Eu fiz varias coisas Emily. Eu me preparei para entrar na faculdade, eu joguei...
- Ethan, por favor, seja honesto comigo.
- Emily...

   Houve aquela pausa que a maioria das conversas tem. Ethan sabia que se ele falasse a verdade a Emily, talvez ele estivesse acabando com qualquer possibilidade de reatar algo, mas por outro lado ele também sabia que mais cedo ou mais tarde ela iria descobrir. Se existe uma coisa que Emily não deixa é estória com furos.

- Eu conheci uma garota em Londres. Eu estava sozinho e carente. Tinha ido assistir a um jogo de futebol com alguns amigos e depois a gente foi para um bar e eu bebi um pouco a mais, e terminei conhecendo essa garota...
- Qual o nome dela?
- Como?
- Eu quero saber o nome dela Ethan.
- Elizabeth... Olha Emily não foi nada ok?
- Nas outras vezes que aconteceu, você também estava bêbado? Todas às vezes você bebeu?
- Emily...
- Ethan, por favor! Você deve está cansado, é melhor você ir para sua casa descansar. A gente conversa depois está bem?
- Emily, por favor...
- Tchau Ethan.

   Emily se levantou e entrou em casa. Ethan olhou para a porta e começou a andar sem direção. Depois de um pouco mais de um ano os dois reataram o namoro, mas nesse meio tempo muita coisa aconteceu. Emily amadureceu ainda mais, teve outros romances curtos, mas que no final a ajudaram a enxergar mais amplamente o mundo. Quando você entra em uma faculdade, a única certeza que você tem é que ali vai ser completamente diferente do colegial. De fato é! Ethan começou também a sua faculdade de medicina e a princípio ele gastava seus fins de semanas com os amigos da faculdade e com uma boa jarra de cerveja. Isso incomodava Emily no fundo, afinal ela via seu amor se acabando lentamente, mas ele precisava sofrer um pouco, não era justo apenas ela sofrer tudo aquilo sozinha. Depois de muitas noites de festas, muitos copos de cervejas, os dois voltaram como tinha que ser.

- Você sabe que por mais que você conheça milhares de garotos, que beije milhares de bocas, você sempre vai acabar voltando para mim. Você é minha Emily!

   E Ethan estava certo. Agora tudo estava perfeito entre os dois. Todas as noites eles se falavam por telefone, ou se viam em algum lugar da cidade. Frio combina com chocolate quente. Esse era literalmente o programa preferido dos dois.

...

   Emily estava na cozinha quando o telefone tocou. Rapidamente ela atendeu. Era Ethan.

- Alô!
- Em, tudo ok por ai?
- Oi sweetheart, está tudo bem sim e por ai?
- Aqui está um pouco.. Você sabe... Solitário.
- Suponho que sua casa precise de companhia.
- É... Até que não seria uma má ideia.
- Eu bem que queria Ethan, mas eu prometi ao Jamie que iria dormir na casa da mamãe hoje. Mas, eu prometo que amanhã eu passo a noite todinha com você. Você sabe que o clima lá em casa está pesado e Jamie precisa da minha ajuda. Minha mãe e ele continuam em pé de guerra...
- Eu sei Emily, você não precisa se explicar. Tudo certo para amanha então. Eu vou preparar alguma coisinha especial para você, talvez um vinho.
- Hum... Vinho?
- Sim... Te ligo amanhã ok?
- OK. Te amo!
- Eu também amo você.

   E a ligação se encerrou. Emily voltou a arrumar a cozinha quando Cindy saiu do quarto. Cindy tinha os cabelos escuros e a pele um pouco pálida. Seus lábios eram um pouco grossos e avermelhados. Era uma beleza diferente. Cindy conheceu Emily na faculdade e as duas estudavam juntas desde então. Ela não era do tipo que aceitava tudo que Emily fazia e no começo foi complicado viverem juntas. Emily tem seu jeito meio mandão e Cindy não é de aceitar ordens, então a confusão estava feita, mas na maior parte do tempo as duas costumavam ser amigas.

- Ethan no telefone?
- Uhum... Queria que eu fosse dormir lá hoje a noite.
- Você não cansa desse melodrama?

Emily sorriu e foi andando em direção ao corredor.

- Eu conheço Ethan desde que eu era uma criança. A gente já passou por muitas coisas. Se fosse para eu ter cansado desse melodrama, eu não estaria onde estou, você não acha?
- Talvez, mas é que às vezes eu sinto falta daquela Emily louca.

As duas sorriram como se lembrassem de algumas coisas que fizeram no passado.

- Eu tenho que ir para a casa da mamãe.
- Já sei! Pode pegar o carro, eu não vou precisar dele mesmo.
- Obrigada!

...

   Emily chegou à casa de sua mãe por volta da hora do jantar. Jamie estava trancado no quarto e sua mãe tristemente na cozinha, fazendo alguma coisa para comer, na esperança que depois de tanto tempo a família pudesse ter uma hora sagrada. Emily deixou a bolsa na cadeira da sala e foi direto a cozinha. Encostou-se na parede e ficou observando sua mãe cozinhar. Ela costumava fazer isso quando era criança, na esperança de comer algumas sobrinhas de comida antes de tudo ficar pronto. Sua mãe hoje era uma mulher triste, que traiu o marido, que depois de alguns meses, por obra do destino faleceu devido a um ataque cardíaco. Os médicos disseram que o ataque cardíaco foi provocado por conta do estresse, então Mrs. Harris carrega essa culpa até hoje. Ela acha que a traição dela, causou toda a dor de sua família, mas o pai de Emily era um homem muito ocupado e costumava fumar mais que o essencial.

- Você está ai filha? Falou Mrs. Harris um pouco assustada. – Você tinha mania de fazer isso quando criança.

   Emily se aproximou da mãe com um sorriso. Deu um beijo em sua testa e perguntou por Jamie. A mãe tristemente apontou para cima.

- Vocês ainda estão sem se falar?
- Você conhece seu irmão. Tem o mesmo temperamento que o seu e o do seu pai. Está trancado a horas. Pensei que talvez com você aqui ele pudesse descer, comer alguma coisa. Estou começando a ficar realmente preocupada com Jamie. A coordenadora da escola me ligou hoje mais cedo e disse que ele está preste a repetir o ano escolar. Chega bêbado nas aulas. Eu não sei mais o que eu faço com seu irmão Emily.

   E algumas lágrimas começaram a descer do rosto de Mrs. Harris, que foram enxugadas nas roupas de Emily, que tomou a mãe com um abraço. Emily a princípio quando descobriu da traição da mãe, ficou muito magoada, mas depois de um tempo e muita conversa, ela decidiu que não iria tratar a mãe dela como culpada a vida toda e que todo mundo erra algum dia. Doía ver sua mãe daquele jeito. Jamie era muito novo para entender certas coisas. Ms. Harris era tudo que ele tinha, então foi difícil aceitar a perda. Emily deixou sua mãe na cozinha e subiu em direção ao quarto de Jamie. Olhou para os corredores e lembrou-se de quando era mais nova e morava naquela casa. Abriu a porta do quarto e viu seu irmão deitado na cama com os fones de ouvido. Quando ele sentiu que havia alguém no quarto, abriu os olhos e viu sua irmã parada diante dele. A felicidade tomou conta de Jamie. Ele sorriu para ela como uma criança sorrir para um cachorrinho que acabou de ganhar. Rapidamente tirou os fones de ouvido e foi abraça-la.  Foi um abraço tão bom, que Emily não sentia fazia um bom tempo.

- O que é que você está fazendo trancado nesse quarto, com essa noite linda ai fora?

Ele sorriu e sentou na cama.

- Estava esperando você chegar. E como estão as coisas? Como vai Ethan?
- Está tudo bem. Ethan está ótimo, planejando te levar a um jogo de futebol, mas Jamie a gente precisa conversar.
- O que? A mamãe já foi falar algo para você? Será que ela apenas não consegue viver a vida dela sem se interferir na minha?
- Jamie ela é nossa mãe. Se eu a perdoei, você também pode e além do mais o que ela me falou é preocupante. Você precisa estudar, se você perder um ano na escola vai ser um atraso para você, se o papai estivesse vivo...
- Se o papai estivesse vivo, Emily, nada disse estaria acontecendo.
- Onde quer que ele esteja, o papai está vendo a gente Jamie. Garanto que não está gostando nada de ver você nessa situação.
- Você veio aqui para ficar comigo, para falar do papai ou para ficar me dando lição de moral?

Emily sorriu de lado e sentou na cama junto a Jamie.

- Eu vim aqui para comer a comida da mamãe e ficar abraçada com você o tempo todo.

   Os dois conversaram mais um pouco. Desceram, comeram até Jamie pegar no sono. Emily tinha mania de ficar sentada nas escadas de sua casa, observando a noite e o movimento. A noite não estava tão fria como as passadas e Emily gastou bastante tempo ali sentada. Todos já tinham ido dormir, ela já tinha falado com Ethan, então era só aproveitar aquele momento. De longe vinha um rapaz correndo. Emily olhou bem para tentar ver quem estaria a uma hora daquela correndo. Aos poucos foi reconhecendo aquele rosto familiar. Eu estava fazendo a minha corrida diária. Ela pensou que a noite só poderia encerrar com chave de ouro. Quando eu estava passando pela frente da casa ela gritou:

- Anda me seguindo?

Olhei assustado. Só poderia ser comigo essas doces palavras.

- Não, na verdade eu deixo essa função com você. Respondi tentando respirar um pouco.
- Correndo a uma hora dessas? Você não tem nada para fazer?
- Na verdade eu não tinha mesmo. Bonita casa, você mora aqui?
- Na verdade minha mãe e meu irmão. Eu só estou de visita.
- Hum... E você não tem nada para fazer além de ficar sentada na escada uma hora dessas?
- Eu já estava de saída.
- Sei.
- Bom... Uma boa noite Tommy.
- Espera!
- O que?
- Bom saber que você dessa vez não esqueceu meu nome. Tenha uma boa noite Emily.

Dei as costas e fui embora. Emily entrou em casa e pegou em um sono profundo.







segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Capítulo 2

   A segunda feira amanheceu mais quente, mas ainda assim frio. Ainda podia sentir a comida de Caroline no meu estomago. No dia anterior eu havia comido tanto que daria para alimentar uma boiada. Era meu primeiro dia na escola. Estranho depois de tanto tempo me sentir um estudante novato, em um mundo surreal. Por mais velho que a gente seja, sempre bate o frio na barriga quando se fala de “primeiro dia de aula”. Você pensa se as pessoas vão ser legais, se você vai ser legal com as pessoas. Bom, essa segunda parte não me importa muito. Vesti uma roupa quente, fiz café e fui andando para a escola. Rosetown School é do tipo que fascina qualquer aluno só pela entrada. Portas enormes, vários estudantes subindo as escadarias, um enorme gramado ao redor. Minha turma era a B12. Fui direto para a sala. Queria ver mais ou menos os tipos de pessoas que  habitavam aquele minúsculo quadrado. Tinha gente de todos os tipos: europeus, latinos, asiáticos. Deixei minha mochila na cadeira e fui beber água antes que o professor chegasse. Voltei para a sala, sentei e esperei o professor entrar. Ele era um pouco esquisito e parecia ser solitário. Mr. Carter era um homem já vivido, deveria ter seus 50 anos ou mais. Colocou sua garrafinha de café na mesa, depois abriu sua pasta e tirou um monte de papeis. Olhou com cuidado as folhas e mandou que a gente se sentasse em dupla. Do meu lado havia um rapaz, de mais ou menos 18 anos, cabelos pretos e olhos tristes. Ele parecia tímido. Juntei minha cadeira ao lado da dele e tentei puxar assunto.

- Então... Eu sou Tommy.
- Logan!
- Prazer Logan, você mora aqui?

   Perguntei estupidamente, mas eu não sou muito bom em puxar assuntos com pessoas aparentemente rejeitadas, elas me deixam nervoso.

- Moro aqui perto, mas não sou daqui. Eu quero dizer... Sou australiano, mas meus pais querem que eu estude aqui.
- Austrália não é a terra dos cangurus? Bastante longe não?
- Um pouco. Pelo seu jeito de falar você também não é americano.
- Na verdade eu sou, mas não norte-americano. Sou brasileiro, tecnicamente sul-americano e não estou aqui por que meus pais querem.
- Gostaria de poder dizer o mesmo, mas é ruim quando você é exemplo da família. O bonzinho da casa sempre acaba sendo o nerd da escola e é assim que as pessoas me veem, como um nerd, eu já estou acostumado.
- As pessoas veem em você o que você quer mostrar para elas. É simples.
- Deve ser simples para você, mas para meninos como eu as coisas são bem mais difíceis. Eu sou reconhecido por que tiro sempre "A", por que sou campeão no vídeo game ou eleito o presidente do grêmio. Caras como você não precisam ser reconhecidos, vocês brilham por si só.
- Caras como eu? Você quis dizer charmosos? Sedutores? Não... Irresistíveis? Dei uma risada baixinha. - Acho que você está completamente errado ao meu respeito. Eu não sou atleta. Isso existe mesmo aqui? Achava que só existia em filmes...
- As coisas aqui não são muito diferentes dos filmes e você só sentou ao meu lado por que estamos em uma didática. Cara você não vai querer ser meu amigo. Sério! Eu posso seriamente estragar a sua reputação.
- Minha reputação? Mas do que é que você está falando? Ninguém me conhece aqui e eu não preciso de uma boa reputação. Para ser sincero eu prefiro ficar com as más.

   Aquele garoto parecia precisar de ajuda. Eu não costumava ser sentimental, mas compaixão eu ainda sentia. Também não estava em posição de escolher a dedo meus amigos e melhor ter um cara como Logan do lado do que ter um monte de testosterona com uma bola cabeluda e oca acima do pescoço. Não que eu estivesse necessitando de amigos, mas eu precisava de alguém. Vendo pelo lado positivo eu poderia aproveitar os fins de semana para jogar guitar hero. Logan tinha tudo para não ser um caso perdido, ele só precisava de uma mãozinha. Fizemos algumas atividades em classe, nos apresentamos diante de todos da sala e o sinal tocou. Recolhi minhas coisas, guardei na mochila e esperei Logan fazer o mesmo. Ele parecia meio desconfiado. Coitado, acho que ninguém nunca se mostrou tão prestativo a ele. Andamos o corredor, atravessamos a porta e chegamos a escadaria. Olhei para frente quando parei imediatamente. Emily vinha em nossa direção. O que ela está fazendo aqui? Só me faltava ela ser alguma professora! Ao acabar de subir os degraus e passar ao meu lado eu perguntei: “Por acaso você anda me seguindo?”, tentando quebrar o gelo que ficou a minha volta. Ela se virou e seu rosto não parecia ter gostado nada da piada. Depois ela sorriu e andou em minha direção.

- Por que você acha que eu deveria te seguir? Você me deu motivos para isso? Já sei... Por que você se acha bonito demais? Não! Melhor... Por que você me achou bonita demais. Acertei?

   Se eu já não tinha gostado dela no primeiro dia, o segundo me fez ter a certeza de que ela era território inimigo. Pode ser signo, santo, o que for, mas alguma coisa não combinava entre a gente. Não pensem que “Os opostos se atraem”, isso é mentira. Na verdade sou a favor de que “Os opostos se distraem, os dispostos é que se atraem” e eu não estava nem um pouco disposto a isso. Respirei fundo, sorri e antes que eu pudesse responder, ela complementou.

- Você não é relógio para gastar seu tempo comigo. Você até que é bonitinho, algumas garotas podem achar você interessante, mas guarde suas palavras para elas, quem sabe desse jeito não funcionam.
- Hum... Eu acho que não.
- Tenha um bom dia... Como é mesmo seu nome?
- Tommy.
- Tenha um bom dia Tommy e... Você.

Logan baixou a cabeça, meio envergonhado. Como aquela garota podia ser tão ridícula? E como eu podia ser humilhado? Quem ela pensava que era? Antes que ela pudesse ir embora eu coloquei as mãos no bolso do casaco e falei em bom tom.

- O nome dele é Logan! Sabe na verdade você pode ser bonita e olhe que eu já vi muitas mulheres bonitas, então isso você pode considerar um elogio, mas nenhuma delas eu posso comparar a você.
- Obrigada!
- Não agradeça, pois isso não é um elogio. Mas você quer um conselho? Da próxima vez que você for se apresentar a alguém e quiser que essa pessoa goste de você, faz o favor de ficar calada.

Desci com Logan as escadas. Ele parecia não entender a situação, até eu não entendia.

- Quem é ela?
- É uma amiga da namorada do meu roomate. Não me pergunte como ela consegue.
- Ela é...
- Linda? Isso importa? Você viu o jeito dela? Do que adianta ser linda, mas quando abrir a boca você não consegue passar 5 minutos do lado.
- Bom eu não faria questão.
- Logan existem belezas e belezas. Existe aquela que não é bonita por fora, mas que por dentro tem toda uma infinidade de qualidades, e existe aquela que é linda por fora, mas não passam de ilusão de ótica. Essa é uma ilusão de ótica, você não vai querer entrar nessa.
- Mas parece que você quer. Eu vi o jeito que você olhou para ela quando ela estava subindo as escadas...
- É o jeito que eu olho para qualquer mulher, isso não importa. Eu não sou um suicida.
- E eu não sou leigo em mulheres.

Ao falar isso, eu não consegui conter uma boa risada.

- Ah não? Quantas namoradas você já teve? Sem contar aquelas de internet que você criou um perfil falso, de um cara muito sarado. Hum?
- Eu tive uma namorada quando era mais novo.
- Sei! Namoro de infância. Eu também tive várias namoradinhas de infância. Brincávamos de médico ... Qual é cara, você quer passar sua vida toda sendo lembrando como ...?
- O virgem?
- Não era essa a palavra que eu ia usar...
- Eu só não tenho jeito Tommy. Eu gaguejo só em pensar em falar com alguma garota, e minhas mãos... Elas ficam frias e suando. Eu não nasci para isso, eu literalmente não nasci para isso.
- Você pode não ter nascido para ser um modelo, um atleta, mas qual é Logan? Todo mundo nasce para isso, ninguém passa a vida inteira sem desenrolar entende?
- Eu não sei...
- Escolha uma, qualquer uma que eu faço você ficar com ela.
- O que?
- É! Você amanhã escolhe a que você quiser e me fala depois. Agora eu tenho que ir. Preciso correr e fazer outras coisas. Vejo você amanhã na aula.
- Mas quem corre no frio? Tommy volta aqui.

   Fui andando lentamente para casa. Planejava tudo que eu iria fazer até que a noite chegasse. Primeira coisa: almoço. Aqui eles chamam de Lunch. Podem levar ao pé da letra, por que literalmente é um lanche. Rosetown podia ser uma charmosa cidade, mas as pessoas não comem bem. Cultura talvez. Depois de comer eu iria descansar e dependendo do tempo correria ou não. Ouvir um pouco de música, estudar o que teve na aula até finalmente Chuck chegar. Aquela tarde foi longa. Eu gosto de tempo livre, tempo meu, mas aquela tarde realmente me incomodou. O tempo foi passando devagar. Eu podia ver o sol se pondo, podia sentir o frio lá fora. Lembrei das noites em que eu passava na janela do meu quarto olhando as nuvens praticamente desaparecerem na escuridão da noite. Chuck finalmente chegou. Não parecia muito feliz. Era essa a hora certa de tentar mostrar alguma solidariedade, já que o que ele fez por mim me deixou realmente satisfeito? Peguei duas cervejas na geladeira, abri e coloquei em um centro que ficava entre um sofá e outro da sala.

- Dia difícil? Perguntei esperando que ele me respondesse.
- Você não imagina. Vão demitir em massa na empresa, funcionários antigos, novos. Estou realmente com medo de cair nessa estória. Eu não posso perder o emprego agora. Eu planejo meu casamento a muito tempo, venho juntando um dom dinheiro, mas não o suficiente entende? E eu não quero ter que recorrer aos meus pais para fazer isso.
- Você acha que deu motivos para ser demitido?
- Você acha que a empresa precisa de motivos para demitir alguém?

   Ao ouvir isso me lembrei de quando fui pedi demissão no meu último emprego. Tive que pensar duas vezes antes de pedir e perder todos os meus direitos. Então a solução foi provocar realmente a minha demissão por justa causa. Tive que seduzir a mulher do meu chefe.

- É melhor você não pensar nisso. Pensamento negativo atrai coisas negativas, até por que você está sofrendo antes do tempo. É melhor não pensar e se for para sofrer, você sofre de uma vez só.
- Desculpa, mas suas teorias não convêm a mim.
- Ok! Mas a questão não é essa. Esquece. Você planeja se casar quando com Caroline?
- Daqui a um ano talvez. Eu não sei ainda Tommy. Eu quero dar a ela a vida que ela merece, mas no momento o que eu posso dar é esse apartamento e mais nada. Caroline foi criada com certo “luxo”, não conseguiria viver assim.
- Mas você não é a favor que o amor é o mais importante? Na riqueza e na pobreza... E por ai vai?
- Não é tão simples assim, isso requer todo um planejamento, não é como brincar de boneca ou meter os pés pelas mãos e ver no que vai dar.
- Não estou dizendo que é isso, só estou mostrando a você o quão contraditório somos. As pessoas dizem na saúde e na doença e o que eu mais vejo são homens e mulheres casados em festa enquanto o outro está em cima de uma cama, isso quando eles não morrem sozinhos... Na riqueza e na pobreza e ninguém quer casar pobre? Por que não fala de uma vez que está casando por amor que pode até ser eterno, mas que não pode dar certeza de um futuro tão longo assim. Seria muito mais simples se as pessoas não mentissem.
- Então você não mente? Você não ama? O que você faz então?
- Não eu não minto, e quando não falo algo eu só estou omitindo. Eu vivo para ser feliz, para conhecer o mundo, as pessoas...
- E o que você leva delas?
- Delas quem?
- Das pessoas...
- Eu levo o que acho que é bom para mim, seja uma fotografia ou um tapa na cara.
- Esse papo não rola... Não comigo. Você pode contar sua história se quiser.
- Que história?
- A mim você não engana Tom. Essa sua raiva, esses seus argumentos, tem alguma ferida ai dentro. Pode contar... Foi traído? Traiu? Alguém morreu?

“Foi traído? Sim. Traiu? Não. Alguém morreu? Eu morri”. Essas seriam minhas respostas se as tivesse dito em voz alta. Chuck me olhou como se esperasse algum complemento, mas eu não sabia se estava pronto a dizer.

- Eu costumava ser um cara como você. Sabe... Esses discursos de amor da minha vida? Pois é, até que o amor da minha vida acabou com ela. Sorri ironicamente. – Se tivesse acontecido apenas umas vez. Chega um tempo que você cansa de ser machucado, eu cansei. Pelo menos eu não sou do tipo que gosta de machucar as pessoas. Eu prefiro ser claro e objetivo: Não estou aberto para relacionamentos! Se você quiser uma companhia, uma noite selvagem ótimo! Mas se você quer romance, eu aconselho a comprar um livro. Chuck sinceramente as experiências que eu tive não valeram a pena. Talvez eu mude, talvez não, mas eu prefiro seguir em frente sem ter que pensar nesse tipo de coisa. O mundo é muito maior do que a gente pensa.
- Espero que você tenha sorte. Você é um cara bacana, esperto, inteligente. Eu não dou um mês para ter muitas mulheres atrás de você. A propósito, antes de qualquer coisa fale comigo, Caroline pode não gostar de... Você sabe... Mulheres no apartamento.
- Ok.
- Vou dormir que o dia foi longo e cansativo. Boa noite!
- Chuck espera!

Chuck parou e olhou para mim.

- Você conhece bem Emily?
- Emily... Emily?
- É a única Emily que eu conheço por enquanto.
- Sim conheço a bastante tempo. Por quê?
- Nada. Eu só esbarrei com ela hoje na escola. Ela estuda lá?
- Não na verdade ela estuda na faculdade próxima da Rosetown School. Mas por que você está perguntando por ela?
- Nada, eu só quis comentar.
- Hum, sei. Emily tem alguns defeitos, mas no fundo é uma boa pessoa.
- Desculpe a sinceridade, mas eu não vejo nenhuma virtude nela.
- Talvez por que ela também não veja nenhuma em você.
- Ela falou alguma coisa?
- Não e não vai falar. Tom, você como centenas de pessoas não passam de um grão de areia para ela, entende? Agora eu vou deitar. Boa noite!
- Boa noite!

E por ali eu fiquei sentado ate acabar a cerveja e adormecer.



sábado, 21 de janeiro de 2012

"Doces Invernos" - Capítulo 1



   Abri os olhos, olhei para o teto, senti o vento frio que vinha de fora. Era oficialmente meu primeiro dia em uma nova cidade e tudo que eu tinha certeza, era que o dia iria ser frio, daqueles que nem o casaco de lã mais grosso conseguiria me aquecer, afinal é janeiro de 2010. Fui para cozinha preparei um café quente e forte. Meu roomate ainda não tinha acordado. Roomate é o termo que os americanos usam quando se referem ao seu colega de quarto. Na verdade eu não estou morando em um quarto. Eu aluguei um apartamento por um ano. Tempo suficiente para eu terminar meus estudos de inglês e voltar para o Brasil. Acho que não me apresentei ainda, eu me chamo Tommy Bernold Freitas, mas conhecido com Tom, pelos íntimos. Minha mãe é descendente de italiano e meu pai... Bom ele é brasileiro nato. Misturando um brasileiro com uma italiana só poderia nascer um brasiliano. Algumas pessoas dizem que o meu charme está nos meus olhos verdes, e no meu cabelo mais escuro, dá um contraste que combina com meu tom de pele um pouco pálido. Eu não me acho a sétima maravilha do mundo, mas me considero inteligente e apaixonado. Eu amo a vida, os lugares, as paisagens. Sou fotógrafo iniciante. No meu antigo emprego eu era publicitário, fotografo, eu na verdade fazia de tudo um pouco. Sou formado a pouco tempo, tenho 24 anos, mas já me sinto na obrigação de ter casa, comida e roupa no armário. Muitas pessoas na minha idade ainda se acham no direito de curtir a vida nos bares, baladas, mas eu tenho uma visão um pouco diferente do que é curtir a vida. Eu prefiro explorar muito mais o mundo e as pessoas do que um copo de bebida e uma noite alucinada. Às vezes acho que eu nasci na década errada. Talvez umas 30 décadas atrás, não sei, mas se fosse assim eu não seria eu e particularmente eu adoro seu “eu”. São 7:00 da manhã e o frio lá fora parece assustador. Eu que sou acostumado com o calor da minha cidade, praias, água de coco, agora tenho que conviver com isso até o verão chegar. Eu não sei por que aqui as pessoas são tão preguiçosas, e o dia começa tão tarde. Acho que é coisa de brasileiro acordar cedo e ir a luta. Tomei meu café, depois fui tomar um banho quente para tentar acordar meus músculos. Domingo geralmente tem cerveja, churrasco e futebol. Bom aqui tem café, edredom e filme sem legenda. Vim me preparando muito tempo para fazer essa viagem, então acho que meu inglês não está mal. Como já disse eu aluguei um apartamento com um cara chamado Chuck. A gente já tinha mantido contato antes pela internet, mas agora é face to face, é muito mais desafiador. Chuck é um cara bacana, trabalha em uma empresa como administrador, tem cabelos castanhos lisos, olhos castanhos e um nariz estilo príncipe. Acho que as garotas devem gostar dele por aqui. Ele namora Caroline. Nunca a vi pessoalmente, mas pelas fotos ela parece ser bem engraçada. Tem os cabelos cor de mel que uma hora está cacheado, outra hora está liso, mas isso não importa, ela é dona de um sorriso angelical. Os dois namoram a mais de quatro anos e Chuck é completamente apaixonado por ela. Eu particularmente não acredito mais no amor. Não de uma forma radical, mas eu acredito no amor de mãe, de família, de animais, mas no amor entre homem e mulher eu deixei de acreditar faz tempo. Desde que eu descobri que a minha ex-namorada namorava comigo e com outro ao mesmo tempo durante 8 meses. Quando se é adolescente tudo causa traumas. Um bebida, uma comida, uma traição. Eu prometi depois disso que nunca mais iria me apaixonar até conhecer a minha segunda ex-namorada que me largou depois de 2 anos de namoro e até hoje eu não sei o por que. Estou preparado para que isso não aconteça a terceira vez. Rosetown parece ser uma cidade gostosa de viver. Apesar do centro da cidade ser uma agitação, aqui no meu bairro as coisas são bem mais tranquilas.
   Depois de trocar de roupa, sai para estender a toalha e vi Chuck tomando o café que eu tinha preparado. Ele parecia cansado, como se não quisesse ter acordado. Seus olhos ainda estavam meio fechados e seu cabelo todo despenteado.

- Isso são horas de acordar no Domingo?

Perguntou ele meio sonolento.

- Você tomou banho?

Perguntou ele de novo, mas dessa vez com uma cara de espanto.
.
- Eu não posso tomar banho quando acordo?
- Na verdade você pode, eu só ... Esquece, isso deve ser mania de brasileiro.

Eu ri meio sem jeito, mas para não encerrar a conversa eu prossegui.

- Pelo menos o café está bom?
- Sim, melhor do que o meu. Posso ser sincero? Qualquer coisa é melhor que o meu café, eu sou um desastre da cozinha. Você ao que parece leva jeito.
- Eu cozinho o essencial, mas não sou nenhum mestre cuca, pelo menos café eu sei fazer. Sorri mais uma vez.

   Chuck levantou, colocou a xícara na pia e foi em direção ao seu quarto. Ele parecia zangado com alguma coisa e isso estava me perturbando. Será que eu fiz alguma coisa que ele não gostou? Será que eu não posso tomar banho quando acordo? Eu realmente queria entender o que estava se passando, mas não sabia como chegar e perguntar. Sentei na mesinha que tinha perto a porta e abri meu notebook. Tinha que mandar noticias a minha mãe e ver como estavam as coisas. A partir de amanhã meus dias iriam ser corridos. Passei mais ou menos trinta minutos até Chuck sair do quarto vestido como se fosse para a rua. Ele pediu para que eu colocasse um casaco quente que íamos dar uma volta para eu conhecer a cidade. Eu achei bastante prestativo de sua parte. Rapidamente peguei o casaco e fomos em direção a algum lugar. Incrível como as ruas da cidade eram bem cuidadas e limpas. As pessoas passeando com seus cachorros, gente correndo, outras caminhando, praças e mais praças com árvores enormes, pareciam àquelas cenas de filme que a gente só acredita vendo. Chuck tirou um cigarro do bolso e me ofereceu. Na minha adolescência eu já tinha fumado bastante. Recusei e continuei andando deslumbrado. O frio era realmente intenso, chagava a doer. 

- Já sentiu um frio assim antes?
-Não é a primeira vez. Conheci algumas cidades frias, mas nada se compara aqui.
-Deve ser difícil... Eu nunca conheci o Brasil, pelo jeito é um país maravilhoso, muitas praias, mulheres bonitas, carnaval.
- Carnaval é fantástico! O Brasil tem seus problemas, mas que país não tem? Já as mulheres... Bom, eu prefiro não comentar, mas se você quer se arriscar, boa sorte!
- Desculpa a pergunta, mas você é gay?

   Eu parei nesse exato momento. Como assim “Você é gay?”. Olhei para Chuck como se não entendesse o que ele acabará de dizer, depois comecei a rir. Mas foi uma risada tão espontânea que foi preciso exatos 10 minutos de gargalhada. Eu não poderia culpa-lo pela pergunta, afinal o jeito que eu falei foi meio duvidoso mesmo, mas agora eu tinha mais uma preocupação na cabeça. Explicar por que eu respondi daquele jeito. Eu não queria entrar em detalhes. Isso me trazia lembranças, na qual eu gostaria de já ter apagado da memória. Chuck me olhava como se não estivesse entendendo nada. Deve ter pensado por um momento que eu era louco.

- Não, eu não sou gay.
- O jeito que você foi meio...
- Eu sei, mas é que eu não tive muitas experiências boas com as mulheres brasileiras, na verdade não quero ter com mulher de lugar nenhum do mundo, são todas iguais. Minha mulher é meu trabalho, meu dinheiro...
- Um homem traído reprimido. Eu entendo.
- Eu não sou reprimido, eu só acho que existem coisas muitos mais importantes do que me preocupar em achar o amor da minha vida, isso é bobagem, ninguém lhe ama mais do que você mesmo.
- Eu namoro Caroline a mais de quatro anos e tenho certeza que existe amor para amá-la ainda mais. Eu não sei o que seria de mim se não tivesse ela do meu lado. É como se eu não soubesse fazer nada entende?
- É exatamente essa relação de dependência que eu não suporto. Se eu quisesse alguém para cuidar de mim eu chamaria minha mãe, pelo menos ela não me trocaria por um cara mais rico ou mais bonito do que eu e se me trocasse ele seria meu padrasto, então no final eu sairia lucrando também.
- Cara você não é normal e ainda vai encontrar alguém e se arrepender de tudo isso que você fala.

   Paramos na frente de uma casa. Parecia ser bastante acolhedora. Tinha um jardim bastante charmoso, as paredes eram em tom de amarelo claro, tinha um banco de madeira do lado da porta. Chuck bateu três vezes na porta e ouvi um latido fino. Caroline abriu a porta com um sorriso maravilhoso.  

- Caroline esse é Tommy..
- Tom!
- ... Tom, meu novo roomate.
- Oi Tom, é um prazer conhece-lo. Entrem! Eu estou preparando um lanche. Vocês estão com fome? Por que nesse frio minha barriga para que nunca está satisfeita.

Pelo menos aqui as pessoas sabem dar as boas vindas. Pensei.

- Chuck Sweetheart você pode me ajudar a levar as coisas para a mesa? Tom pode ficar a vontade, sinta-se em casa.

   Me sentei no sofá para esperar que eles terminassem de fazer toda a cerimônia. Eu estava um pouco envergonhado. Será que era preciso mesmo passar por tudo aquilo? Comecei a bater nas minhas pernas procurando fazer algum som legal que fizesse o tempo passar mais depressa. Era uma mania que eu tinha desde criança. Eu adoro música. Toco violão desde os 7 anos de idade e com o passar do tempo fui aprendendo a tocar outros instrumentos como bateria, teclado e saxofone. Escutei um barulho vindo do corredor, parecia uma risada... Não era alguém no telefone.


- Certo, eu te ligo depois. Amo você!

   O que era aquilo? Ela até era bonita. Não bonita é piada, ela era inexplicavelmente linda. Seus cabelos pretos e lisos, sua nariz afilado, sua pele um pouco mais morena do que o de costume por aqui.

- Quem é você? Perguntou ela com uma cara de repulsão.
- Tommy, amigo de Chuck. Quem é você?
- Isso importa? Caroline eu tenho que ir, Ethan e eu vamos jantar hoje a noite. Estamos comemorando os 3 anos de namoro. Oi Chuck!
- Oi Emily...
- Emily espera....

E a porta se fechou.

- Desculpa o jeito dela.

 Disse Caroline meio envergonhada pela amiga.

- Tudo bem, eu já estou acostumado com esse tipo de pessoa.
- Então vamos comer, não é?

   Passamos a tarde comendo e conversando. Chuck e eu voltamos para casa de tardezinha. A temperatura baixava ainda mais. Chegamos em casa eu agradeci pelo dia e entrei no meu quarto. Vesti o pijama e lembro-me que cai na cama.