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Esse blog é destinado a todos aqueles que são apaixonados por leitura e seus romances.
Sejam todos Bem Vindos e Divirtam-se.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Capítulo 2

   A segunda feira amanheceu mais quente, mas ainda assim frio. Ainda podia sentir a comida de Caroline no meu estomago. No dia anterior eu havia comido tanto que daria para alimentar uma boiada. Era meu primeiro dia na escola. Estranho depois de tanto tempo me sentir um estudante novato, em um mundo surreal. Por mais velho que a gente seja, sempre bate o frio na barriga quando se fala de “primeiro dia de aula”. Você pensa se as pessoas vão ser legais, se você vai ser legal com as pessoas. Bom, essa segunda parte não me importa muito. Vesti uma roupa quente, fiz café e fui andando para a escola. Rosetown School é do tipo que fascina qualquer aluno só pela entrada. Portas enormes, vários estudantes subindo as escadarias, um enorme gramado ao redor. Minha turma era a B12. Fui direto para a sala. Queria ver mais ou menos os tipos de pessoas que  habitavam aquele minúsculo quadrado. Tinha gente de todos os tipos: europeus, latinos, asiáticos. Deixei minha mochila na cadeira e fui beber água antes que o professor chegasse. Voltei para a sala, sentei e esperei o professor entrar. Ele era um pouco esquisito e parecia ser solitário. Mr. Carter era um homem já vivido, deveria ter seus 50 anos ou mais. Colocou sua garrafinha de café na mesa, depois abriu sua pasta e tirou um monte de papeis. Olhou com cuidado as folhas e mandou que a gente se sentasse em dupla. Do meu lado havia um rapaz, de mais ou menos 18 anos, cabelos pretos e olhos tristes. Ele parecia tímido. Juntei minha cadeira ao lado da dele e tentei puxar assunto.

- Então... Eu sou Tommy.
- Logan!
- Prazer Logan, você mora aqui?

   Perguntei estupidamente, mas eu não sou muito bom em puxar assuntos com pessoas aparentemente rejeitadas, elas me deixam nervoso.

- Moro aqui perto, mas não sou daqui. Eu quero dizer... Sou australiano, mas meus pais querem que eu estude aqui.
- Austrália não é a terra dos cangurus? Bastante longe não?
- Um pouco. Pelo seu jeito de falar você também não é americano.
- Na verdade eu sou, mas não norte-americano. Sou brasileiro, tecnicamente sul-americano e não estou aqui por que meus pais querem.
- Gostaria de poder dizer o mesmo, mas é ruim quando você é exemplo da família. O bonzinho da casa sempre acaba sendo o nerd da escola e é assim que as pessoas me veem, como um nerd, eu já estou acostumado.
- As pessoas veem em você o que você quer mostrar para elas. É simples.
- Deve ser simples para você, mas para meninos como eu as coisas são bem mais difíceis. Eu sou reconhecido por que tiro sempre "A", por que sou campeão no vídeo game ou eleito o presidente do grêmio. Caras como você não precisam ser reconhecidos, vocês brilham por si só.
- Caras como eu? Você quis dizer charmosos? Sedutores? Não... Irresistíveis? Dei uma risada baixinha. - Acho que você está completamente errado ao meu respeito. Eu não sou atleta. Isso existe mesmo aqui? Achava que só existia em filmes...
- As coisas aqui não são muito diferentes dos filmes e você só sentou ao meu lado por que estamos em uma didática. Cara você não vai querer ser meu amigo. Sério! Eu posso seriamente estragar a sua reputação.
- Minha reputação? Mas do que é que você está falando? Ninguém me conhece aqui e eu não preciso de uma boa reputação. Para ser sincero eu prefiro ficar com as más.

   Aquele garoto parecia precisar de ajuda. Eu não costumava ser sentimental, mas compaixão eu ainda sentia. Também não estava em posição de escolher a dedo meus amigos e melhor ter um cara como Logan do lado do que ter um monte de testosterona com uma bola cabeluda e oca acima do pescoço. Não que eu estivesse necessitando de amigos, mas eu precisava de alguém. Vendo pelo lado positivo eu poderia aproveitar os fins de semana para jogar guitar hero. Logan tinha tudo para não ser um caso perdido, ele só precisava de uma mãozinha. Fizemos algumas atividades em classe, nos apresentamos diante de todos da sala e o sinal tocou. Recolhi minhas coisas, guardei na mochila e esperei Logan fazer o mesmo. Ele parecia meio desconfiado. Coitado, acho que ninguém nunca se mostrou tão prestativo a ele. Andamos o corredor, atravessamos a porta e chegamos a escadaria. Olhei para frente quando parei imediatamente. Emily vinha em nossa direção. O que ela está fazendo aqui? Só me faltava ela ser alguma professora! Ao acabar de subir os degraus e passar ao meu lado eu perguntei: “Por acaso você anda me seguindo?”, tentando quebrar o gelo que ficou a minha volta. Ela se virou e seu rosto não parecia ter gostado nada da piada. Depois ela sorriu e andou em minha direção.

- Por que você acha que eu deveria te seguir? Você me deu motivos para isso? Já sei... Por que você se acha bonito demais? Não! Melhor... Por que você me achou bonita demais. Acertei?

   Se eu já não tinha gostado dela no primeiro dia, o segundo me fez ter a certeza de que ela era território inimigo. Pode ser signo, santo, o que for, mas alguma coisa não combinava entre a gente. Não pensem que “Os opostos se atraem”, isso é mentira. Na verdade sou a favor de que “Os opostos se distraem, os dispostos é que se atraem” e eu não estava nem um pouco disposto a isso. Respirei fundo, sorri e antes que eu pudesse responder, ela complementou.

- Você não é relógio para gastar seu tempo comigo. Você até que é bonitinho, algumas garotas podem achar você interessante, mas guarde suas palavras para elas, quem sabe desse jeito não funcionam.
- Hum... Eu acho que não.
- Tenha um bom dia... Como é mesmo seu nome?
- Tommy.
- Tenha um bom dia Tommy e... Você.

Logan baixou a cabeça, meio envergonhado. Como aquela garota podia ser tão ridícula? E como eu podia ser humilhado? Quem ela pensava que era? Antes que ela pudesse ir embora eu coloquei as mãos no bolso do casaco e falei em bom tom.

- O nome dele é Logan! Sabe na verdade você pode ser bonita e olhe que eu já vi muitas mulheres bonitas, então isso você pode considerar um elogio, mas nenhuma delas eu posso comparar a você.
- Obrigada!
- Não agradeça, pois isso não é um elogio. Mas você quer um conselho? Da próxima vez que você for se apresentar a alguém e quiser que essa pessoa goste de você, faz o favor de ficar calada.

Desci com Logan as escadas. Ele parecia não entender a situação, até eu não entendia.

- Quem é ela?
- É uma amiga da namorada do meu roomate. Não me pergunte como ela consegue.
- Ela é...
- Linda? Isso importa? Você viu o jeito dela? Do que adianta ser linda, mas quando abrir a boca você não consegue passar 5 minutos do lado.
- Bom eu não faria questão.
- Logan existem belezas e belezas. Existe aquela que não é bonita por fora, mas que por dentro tem toda uma infinidade de qualidades, e existe aquela que é linda por fora, mas não passam de ilusão de ótica. Essa é uma ilusão de ótica, você não vai querer entrar nessa.
- Mas parece que você quer. Eu vi o jeito que você olhou para ela quando ela estava subindo as escadas...
- É o jeito que eu olho para qualquer mulher, isso não importa. Eu não sou um suicida.
- E eu não sou leigo em mulheres.

Ao falar isso, eu não consegui conter uma boa risada.

- Ah não? Quantas namoradas você já teve? Sem contar aquelas de internet que você criou um perfil falso, de um cara muito sarado. Hum?
- Eu tive uma namorada quando era mais novo.
- Sei! Namoro de infância. Eu também tive várias namoradinhas de infância. Brincávamos de médico ... Qual é cara, você quer passar sua vida toda sendo lembrando como ...?
- O virgem?
- Não era essa a palavra que eu ia usar...
- Eu só não tenho jeito Tommy. Eu gaguejo só em pensar em falar com alguma garota, e minhas mãos... Elas ficam frias e suando. Eu não nasci para isso, eu literalmente não nasci para isso.
- Você pode não ter nascido para ser um modelo, um atleta, mas qual é Logan? Todo mundo nasce para isso, ninguém passa a vida inteira sem desenrolar entende?
- Eu não sei...
- Escolha uma, qualquer uma que eu faço você ficar com ela.
- O que?
- É! Você amanhã escolhe a que você quiser e me fala depois. Agora eu tenho que ir. Preciso correr e fazer outras coisas. Vejo você amanhã na aula.
- Mas quem corre no frio? Tommy volta aqui.

   Fui andando lentamente para casa. Planejava tudo que eu iria fazer até que a noite chegasse. Primeira coisa: almoço. Aqui eles chamam de Lunch. Podem levar ao pé da letra, por que literalmente é um lanche. Rosetown podia ser uma charmosa cidade, mas as pessoas não comem bem. Cultura talvez. Depois de comer eu iria descansar e dependendo do tempo correria ou não. Ouvir um pouco de música, estudar o que teve na aula até finalmente Chuck chegar. Aquela tarde foi longa. Eu gosto de tempo livre, tempo meu, mas aquela tarde realmente me incomodou. O tempo foi passando devagar. Eu podia ver o sol se pondo, podia sentir o frio lá fora. Lembrei das noites em que eu passava na janela do meu quarto olhando as nuvens praticamente desaparecerem na escuridão da noite. Chuck finalmente chegou. Não parecia muito feliz. Era essa a hora certa de tentar mostrar alguma solidariedade, já que o que ele fez por mim me deixou realmente satisfeito? Peguei duas cervejas na geladeira, abri e coloquei em um centro que ficava entre um sofá e outro da sala.

- Dia difícil? Perguntei esperando que ele me respondesse.
- Você não imagina. Vão demitir em massa na empresa, funcionários antigos, novos. Estou realmente com medo de cair nessa estória. Eu não posso perder o emprego agora. Eu planejo meu casamento a muito tempo, venho juntando um dom dinheiro, mas não o suficiente entende? E eu não quero ter que recorrer aos meus pais para fazer isso.
- Você acha que deu motivos para ser demitido?
- Você acha que a empresa precisa de motivos para demitir alguém?

   Ao ouvir isso me lembrei de quando fui pedi demissão no meu último emprego. Tive que pensar duas vezes antes de pedir e perder todos os meus direitos. Então a solução foi provocar realmente a minha demissão por justa causa. Tive que seduzir a mulher do meu chefe.

- É melhor você não pensar nisso. Pensamento negativo atrai coisas negativas, até por que você está sofrendo antes do tempo. É melhor não pensar e se for para sofrer, você sofre de uma vez só.
- Desculpa, mas suas teorias não convêm a mim.
- Ok! Mas a questão não é essa. Esquece. Você planeja se casar quando com Caroline?
- Daqui a um ano talvez. Eu não sei ainda Tommy. Eu quero dar a ela a vida que ela merece, mas no momento o que eu posso dar é esse apartamento e mais nada. Caroline foi criada com certo “luxo”, não conseguiria viver assim.
- Mas você não é a favor que o amor é o mais importante? Na riqueza e na pobreza... E por ai vai?
- Não é tão simples assim, isso requer todo um planejamento, não é como brincar de boneca ou meter os pés pelas mãos e ver no que vai dar.
- Não estou dizendo que é isso, só estou mostrando a você o quão contraditório somos. As pessoas dizem na saúde e na doença e o que eu mais vejo são homens e mulheres casados em festa enquanto o outro está em cima de uma cama, isso quando eles não morrem sozinhos... Na riqueza e na pobreza e ninguém quer casar pobre? Por que não fala de uma vez que está casando por amor que pode até ser eterno, mas que não pode dar certeza de um futuro tão longo assim. Seria muito mais simples se as pessoas não mentissem.
- Então você não mente? Você não ama? O que você faz então?
- Não eu não minto, e quando não falo algo eu só estou omitindo. Eu vivo para ser feliz, para conhecer o mundo, as pessoas...
- E o que você leva delas?
- Delas quem?
- Das pessoas...
- Eu levo o que acho que é bom para mim, seja uma fotografia ou um tapa na cara.
- Esse papo não rola... Não comigo. Você pode contar sua história se quiser.
- Que história?
- A mim você não engana Tom. Essa sua raiva, esses seus argumentos, tem alguma ferida ai dentro. Pode contar... Foi traído? Traiu? Alguém morreu?

“Foi traído? Sim. Traiu? Não. Alguém morreu? Eu morri”. Essas seriam minhas respostas se as tivesse dito em voz alta. Chuck me olhou como se esperasse algum complemento, mas eu não sabia se estava pronto a dizer.

- Eu costumava ser um cara como você. Sabe... Esses discursos de amor da minha vida? Pois é, até que o amor da minha vida acabou com ela. Sorri ironicamente. – Se tivesse acontecido apenas umas vez. Chega um tempo que você cansa de ser machucado, eu cansei. Pelo menos eu não sou do tipo que gosta de machucar as pessoas. Eu prefiro ser claro e objetivo: Não estou aberto para relacionamentos! Se você quiser uma companhia, uma noite selvagem ótimo! Mas se você quer romance, eu aconselho a comprar um livro. Chuck sinceramente as experiências que eu tive não valeram a pena. Talvez eu mude, talvez não, mas eu prefiro seguir em frente sem ter que pensar nesse tipo de coisa. O mundo é muito maior do que a gente pensa.
- Espero que você tenha sorte. Você é um cara bacana, esperto, inteligente. Eu não dou um mês para ter muitas mulheres atrás de você. A propósito, antes de qualquer coisa fale comigo, Caroline pode não gostar de... Você sabe... Mulheres no apartamento.
- Ok.
- Vou dormir que o dia foi longo e cansativo. Boa noite!
- Chuck espera!

Chuck parou e olhou para mim.

- Você conhece bem Emily?
- Emily... Emily?
- É a única Emily que eu conheço por enquanto.
- Sim conheço a bastante tempo. Por quê?
- Nada. Eu só esbarrei com ela hoje na escola. Ela estuda lá?
- Não na verdade ela estuda na faculdade próxima da Rosetown School. Mas por que você está perguntando por ela?
- Nada, eu só quis comentar.
- Hum, sei. Emily tem alguns defeitos, mas no fundo é uma boa pessoa.
- Desculpe a sinceridade, mas eu não vejo nenhuma virtude nela.
- Talvez por que ela também não veja nenhuma em você.
- Ela falou alguma coisa?
- Não e não vai falar. Tom, você como centenas de pessoas não passam de um grão de areia para ela, entende? Agora eu vou deitar. Boa noite!
- Boa noite!

E por ali eu fiquei sentado ate acabar a cerveja e adormecer.



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